segunda-feira, 17 de janeiro de 2011

- O SACRIFÍCIO - PRA QUE SERVE?

Em meus tempos de Muzenza, muitas vezes eu me parava pensando durante as obrigações realizadas pra que na realidade servia todos os apretechos que são colocados no igbá dos Nkissis tais como: penas, mutuê, patas e diversas partes dos animais imolados e durante meu percurso até chegar a minha posição de Tàta Nkissi obtive algumas respostas e resolvi compartilhar aqui no meu blog:

O ssacrifício não é sinonimo de assassinato, está relacionado a ritual sagrado, no candomblé, sacrificar significa ampliar, acumular e distribuir a força vital  e chamamos esta força de Axé. Boa parte das religiões utilizava sacrifícios, em seus rituais, mas na maioria das vezes num sentido expiatório, não se aplicando essa noção ao Candomblé por um motivo aparentemente simples: No Candomblé, não existe pecado, portanto não há o que expiar, pois acreditamos na ação, reação e conseqüências.  
Entre os cristãos, por exemplo, a extinção do sacrifício (em termos reais), justifica-se pela morte de Jesus Cristo, que teria morrido para salvar a humanidade, no mais importante sacrifício que o mundo assistiu. Ocorre que Jesus morreu pelos Cristãos, e não pelo Candomblé, e isso significa, na realidade, que os ritos processados em outras doutrinas religiosas não fazem nenhum sentido para os orixás; da mesma forma que os rituais de candomblé fogem a compreensão das outras denominações. Esta é uma das principais razões dos terreiro de candomblé serem considerados espaços marginalizados. 
  
o Candomblé só se explica pelo Candomblé, não adiantando recorrer à bíblia para explicar e muito menos condenar as práticas da religião dos Orixás.
O sangue é de importância vital para os Orixás, pois esta ligada à concepção, à fertilidade, ao nascimento e a todas as etapas da vida. Acreditamos que sem sangue não há Axé, ninguém nasce sem sangue. Quando deixar de haver sacrifícios, o Candomblé deixará de existir, em breve estarems vendo o sangue sendo vendidos em saquinhos de geladinho nas casas de ervas com algum anti coagulante, pois é meus irmãos e isso está aconteçendo de verdade, isso seria o obvio do absurdo e da ignorancia, só que as pessoas estão mistificando muito nossa religião e ridicularizando também e isso tá partindo dos proprios zeladores/as irresponsáveis que querem habituar a nossa religião ao modernismo, nao quero dizer irmãos e irmãs que a nossa religião é antiquada nem atrasada, mas sim um culto que segue a risca seus costumes deixados pelos nossos antepassados/ancestrais, entre o sim e o não pela Menga (sangue), não pode existir o talvez, então vamos nos conscientizar da importância da Menga/ejé e utiliza-la para fins necessários. Não se derramam o sangue do animal por maldade ou crueldade e muitos menos para fazer mal a alguém. O sacrifício é a condição para que a vida continue, e não apenas no Candomblé. Todos se alimentam, seja de carne, seja de vegetal, e um boi pode ser comido em bifes; uma alface, ao ser desconectada de sua raiz, também é morta. Por que não se pode atribuir um significado religioso a um ato essencial para a sobrevivência humana?Será mesmo que a condenação do Candomblé se deve ao sacrifício? Não seria uma forma da sociedade camuflar preconceitos mais profundos? o assasinato nao está no candomblé mas sim nos matadouros, onde os animais são submetidos a inúmeras crueldades e morrem com muito sofrimento. Imaginem um animal ainda vivo tendo a sua pele arrancada: isso é um exemplo que ocorre nos matadouros. É por isso que a carne que será consumida pelos iniciados e pela nossa comunidade do candomblé deve ser sacralizada por meios de rituais específicos, a carne de um animal que morreu com o sofrimento não faz bem a ninguém. Os Judeus e Muçulmanos, por exemplo, só comem carnes de animais abatidos de acordo com seus preceitos, por que o Candomblé não pode fazer o mesmo?
O sentido de cada parte:

A cabeça ou o mutuê do animal leva a boca / bico, são depositados nos assentamentos crus e servirão para relatar no Duílo todas as nossas necessidades e os nossos pedidos;
Os pés dos animais são para caminhar, ajudar a nos guiar e seguir o percurso da vida de forma correta e também para dar caminho ao ODU;
Quando imola-se um animal para os Nkissis deve-se cobrir os olhos principalmente com Nsabas de Basakará ( folha da costa), para que não levem a nossa imagem;
As penas do peito são depositadas para promover a nossa protecção;
As penas e pontas das asas são para voar, no sentido de transpormos nossas dificuldades na vida;
A cauda é para nos dá o leme, o equilíbrio, a direcção na vida;
O sacrifício do pombo é para dotar-nos da habilidade de voar por sobre os perigos;
Sacrifícios de peixe é para amenizar os sofrimentos. Na hora do sacrifício pedir sorte, fartura e prosperidade;
 Ao sacrificar o ÌGBÍN, pedir paz, harmonia e afastar dos perigos, sabendo também realizar de forma cuidadosa e correta, sendo geralmente puxados e nunca cortados com objectos de metal;
 O OBI representa a interrelação de amizade, o pacto de comunidade entre o muzenza, o zelador e o Nkissi. Significa a vida. É um alimento básico, e toda vez que é oferecido, o seu consumo é sempre precedido por preces;
 O DENDÊ quando utilizado suaviza a ira das divindades;
 A pimenta da costa é para dar força, concretizar as palavras, e levar facilmente nossos pedidos aos deuses;
O acaçá é de suma importância no culto e sempre é oferecido de Ngira a Lembá, sem excessões.
É um absurdo acusar o Candomblé de fazer sacrifícios humanos, como têm feito certas igrejas. O Candomblé não é uma religião hipócrita e assume o que faz. São sacrificados, sim, bois, bodes galinhas, patos e muitos outros animais, que depois servem de alimentos à comunidade, mas nunca seres humanos, pois o Orixá vive no Homem e através do Homem.
Todo homem sacrifica não necessariamente num sentido religioso, e mata para sobreviver. Que mal pode haver em oferecer aos deuses as partes que o homem não consome?
Lembre-se de que Jesus foi condenado à morte por pessoas que viriam a santificá-lo depois, fazendo o sinal-da-cruz, adorando a sua imagem ensangüentada. Pois que fique bem claro: não somos contra o homem Jesus, mas contra os homens que mataram Jesus. Nós não matamos nossos Orixás, “nós os amamos com todos os seus defeitos e qualidades”!
Para o Candomblé tudo que a natureza produz é sangue, pois o que define o sangue é a força que detém o axé, ou seja, o Axé é um sacrifício que requer a utilização de vários tipos de sangue, vindos das mais variadas fontes da natureza, atribuindo vida e sentido ao Orixá, aos homens e à própria existência.

terça-feira, 11 de janeiro de 2011

MEUS QUERIDOS PAIS...




                               FIRÍ                                      E                        MUTÁ




As razões de minha sobrevivência!! O rei e o príncipe que reinam em meu destino, que completam a minha existência nesse mundo de meu Deus!!!

segunda-feira, 10 de janeiro de 2011

GLOSSÁRIO DO CANDOMBLÉ NGOLA

Devido a contingencias históricas, ao silencio de nossos antepassados e até pelo proprio sigilo dos componentes da nossa nação, o candomblé Ketu ficou mais conhecido no Brasil de que as demais tradições africanas. por esse e outros motivos muitos não reconhecem os termos da nomenclatura Bantu adotada pelo candomblé angola e congo, pensando nisso resolvi acrescentar um pequen glossário a fim de enriqueçer nossos conhecimentos, claro que não se trata de um vocabulário completo porém vai ajudar a manter viva nossas tradições. São eles:

Amalu - filho de odú, termo correspondente ao nagô omõ odú. Cada um deles rege um caminho diferente. Quando se diz que ele está negativo , na verdade é o Amalu que está percorrendo caminhos negativos em sua vida por influencia de algo. Nesse caso é preciso fazer oferendas, limpeza de corpo para positivar e afastar o caminho negativo do Amalu.

Abadá - Veste branca ou de cor de mangas largas, usada no culto.

Abadô - Parte da vestimenta da Orixá Oxum, também pipoca feita para omolú.

Abalô - Nome dado a Oxum quando brinca com o leque.

Abantu - povo, mundo exterior

Abará - Bolo feito com massa de feijão-fradinho, cebola, camarão-seco, sal, enrolado com folhas de bananeira e cozido no vapor de água quente.

Abassá - Terreiro de Candomblé da nação Angola.

Abatá, afopá  - Sapato ou qualquer tipo de calçado.

Abebê - espelho usado por Oxum e Iemanjá.

Abelê - leque usado por Oxum.

Abô - banho de proteção feito de ervas litúrgicas para o culto, concedido ao iniciado, filhos da casa e visitantes que necessitam.

Acarajé - comida ritual da Orixá Oyá-Iansã. Na África é chamado de àkàrà, enquanto je significa comer. No Brasil foram unidas as duas palavras acara-je.

Acaçá - é uma comida ritual do candomblé feito com milho branco ou milho vermelho. Todos Orixás recebem o Acaçá como oferenda.

Adé - Homem com trejeitos femininos, homem afeminado.

Adiê – Galinha preparada para sacrifício aos Orixás.

Adjá - sino de alumínio ou cobre de duas ou mais bocas.

Afoman - Um dos nomes do Orixá Omulu, Deriva de Afomó: contagioso, infeccioso;

Aiuká - Fundo do mar
.
Ajapá - Cágado, tartaruga. O animal sagrado de Xangô.

Ajé - Feiticeira

Atakã - Faixa usada para amarrar no peito dos médiuns incorporados.

Akikó - Galo

Akokem - Galinha D’angola.

Akukó - O mesmo que Akikó - Galo.

Aladori - pano amarrado à cabeça, ojá.

Alafange - Objeto semelhante a uma espada.

Alibã - Polícia.

Aluá - Bebida feita com farinha de milho ou de arroz, fermentada em água com cascas de frutas, gengibre e um pouco açúcar. É servida nos terreiros de Candomblé, principalmente aos caboclos.

Alubosa - Cebola

Amalá - é comida ritual do Orixá Xangô. É feito com quiabo cortado, cebola ralada, pó de camarão, sal, azeite de dendê ou azeite doce.

Amobirim - Mulher que não casou , mulher solteira.
Angorô - Na nação angola, significa qualidade de Oxumarê.

Ahôboboi - Saudação do Orixá Oxumarê.

Arê - Ruas e Encruzilhadas.

arerê - fofoca.

Ariaxé - Banho ritual com folhas sagradas para os iniciados. Ariaxé também é o nome do local onde são feitos estes banhos.

Brajá - colar de búzios com aparência de escamas de serpente utilizado por Oxumaré.

Búzios - conchas cônicas utilizadas para adivinhação.

Contra-egum - trança feita de palha-da-costa que, amarrado no braço do muzenza, tem a função de afastar os mortos.

Curas - espécie de tatuagens, cortes,  desenhadas na cabeça e em algumas partes do muzenza no ritual de iniciação.

dississa - esteira de palha usada para deitar o iniciado.

Ebó - ritual destinado a afastar os elementos desordeiros indicados pelo desequilíbrio do iniciado.

Idés - pulseiras

kelê - colar de contas que denotam submissão do muzenza preso ao pescoço (dikelengo)

Laguidibá - colar de Obaluaê feito de anéis de chifre de boi.

Ngidiá (cudiaia) mutuê - termo angola que significa comida à cabeça, permitindo a conjunção das forças cósmicas fortaleçendo o Mukutú mokum (corpo), no termo nagõ refere-se ao borí.

Mutuê- Seria a cabeça em sí, o orí correspondente do nagô.

makó- São nossas mãos.

Nkisse - Designação geral das divindades bantu, o orixá - nagô.

Mameto Nkisse - Zeladora, Mãe de santo.

Obi - fruto de uma palmeira africana, usado no candomblé na adivinhação ou como oferenda aos Nkissi.

Ofá - arco e flecha, instrumento-símbolo de Oxossi e Logum.

Oga - camaleão.

Tateto Nkisse - Pai de santo, zelador  

Muzenza - Filho de santo que passa pelo processo iniciático, o leigo que passa a reçeber os conhecimentos e segredos da religião, chamado de iyawô naa cultura nagô. Esse deixa de ser muzenza após 7 anos de feitura.

DUÍLO E IXÍ

O mundo para Ngola se divide em duas partes: O DUÍLO que é o céu, o paraíso, a morada do nkissi ( orixá, vodum) e o IXÍ que é a nossa terra, o habitat material onde todo reino animal e vegetal faz morada.
Na Ngola acredita-se que ao redor do Ixí existe nove centros universais chamados de Angomí Duilo, que se subdividem em três camadas: os ancestrais e o próprio destino habitam nas quatro camadas superiores, as forças que se comunicam com os seres habitam nos quatro centros inferiores, existindo também uma outra camada intermediaria onde localiza-se a força responsável pela união das outras duas, estando intimamente ligada ao carma e a encarnação do ser humano. Por motivo desses nove centros universais estarem situados ao redor da terra o culto Ngola passa a venerar o numero nove de forma fenomenal e altamente fundamental  na vida do ser humano. A influencia deste é tão grande que existe 9 fases lunares e 9 meses de gestação e a partir daí surge um novo ser que se completa ao receber o Ofú ou sopro de Zambi sendo confirmado com o primeiro choro da vida! Esse novo ser, que agora possui um mukutú mokúm (corpo físico onde se concentra todo o conjunto de energias) complexo e formado entrará em contacto direto com o mundo material experimentando a partir daí os novos prazeres e decepções da vida terrestre!!!   

CÉU E TERRA PARA A ANGOLA..

Quando propus iniciar os comentários que serão postados no decorrer do tempo nesse blog pensei... "hoje nasce algo muito importante para a nação angola, pois esse culto está morrendo aos poucos e precisa de uma " injeção de conhecimentos" para ressucita-lo!!" A intenção aqui é de reflectir um pouco mais sobre as práticas dessa nação tão rica e belíssima que está sofrendo de abandono!!!
Esses conhecimentos servirão para o aprimoramento e enriquecimento do nosso culto, sem a intenção de expor aqui os fundamentos em si, mas de desmistificar toda a nação sendo esta muito importante para o culto!!