Em meus tempos de Muzenza, muitas vezes eu me parava pensando durante as obrigações realizadas pra que na realidade servia todos os apretechos que são colocados no igbá dos Nkissis tais como: penas, mutuê, patas e diversas partes dos animais imolados e durante meu percurso até chegar a minha posição de Tàta Nkissi obtive algumas respostas e resolvi compartilhar aqui no meu blog:
O ssacrifício não é sinonimo de assassinato, está relacionado a ritual sagrado, no candomblé, sacrificar significa ampliar, acumular e distribuir a força vital e chamamos esta força de Axé. Boa parte das religiões utilizava sacrifícios, em seus rituais, mas na maioria das vezes num sentido expiatório, não se aplicando essa noção ao Candomblé por um motivo aparentemente simples: No Candomblé, não existe pecado, portanto não há o que expiar, pois acreditamos na ação, reação e conseqüências.
Entre os cristãos, por exemplo, a extinção do sacrifício (em termos reais), justifica-se pela morte de Jesus Cristo, que teria morrido para salvar a humanidade, no mais importante sacrifício que o mundo assistiu. Ocorre que Jesus morreu pelos Cristãos, e não pelo Candomblé, e isso significa, na realidade, que os ritos processados em outras doutrinas religiosas não fazem nenhum sentido para os orixás; da mesma forma que os rituais de candomblé fogem a compreensão das outras denominações. Esta é uma das principais razões dos terreiro de candomblé serem considerados espaços marginalizados.
o Candomblé só se explica pelo Candomblé, não adiantando recorrer à bíblia para explicar e muito menos condenar as práticas da religião dos Orixás.
O sangue é de importância vital para os Orixás, pois esta ligada à concepção, à fertilidade, ao nascimento e a todas as etapas da vida. Acreditamos que sem sangue não há Axé, ninguém nasce sem sangue. Quando deixar de haver sacrifícios, o Candomblé deixará de existir, em breve estarems vendo o sangue sendo vendidos em saquinhos de geladinho nas casas de ervas com algum anti coagulante, pois é meus irmãos e isso está aconteçendo de verdade, isso seria o obvio do absurdo e da ignorancia, só que as pessoas estão mistificando muito nossa religião e ridicularizando também e isso tá partindo dos proprios zeladores/as irresponsáveis que querem habituar a nossa religião ao modernismo, nao quero dizer irmãos e irmãs que a nossa religião é antiquada nem atrasada, mas sim um culto que segue a risca seus costumes deixados pelos nossos antepassados/ancestrais, entre o sim e o não pela Menga (sangue), não pode existir o talvez, então vamos nos conscientizar da importância da Menga/ejé e utiliza-la para fins necessários. Não se derramam o sangue do animal por maldade ou crueldade e muitos menos para fazer mal a alguém. O sacrifício é a condição para que a vida continue, e não apenas no Candomblé. Todos se alimentam, seja de carne, seja de vegetal, e um boi pode ser comido em bifes; uma alface, ao ser desconectada de sua raiz, também é morta. Por que não se pode atribuir um significado religioso a um ato essencial para a sobrevivência humana?Será mesmo que a condenação do Candomblé se deve ao sacrifício? Não seria uma forma da sociedade camuflar preconceitos mais profundos? o assasinato nao está no candomblé mas sim nos matadouros, onde os animais são submetidos a inúmeras crueldades e morrem com muito sofrimento. Imaginem um animal ainda vivo tendo a sua pele arrancada: isso é um exemplo que ocorre nos matadouros. É por isso que a carne que será consumida pelos iniciados e pela nossa comunidade do candomblé deve ser sacralizada por meios de rituais específicos, a carne de um animal que morreu com o sofrimento não faz bem a ninguém. Os Judeus e Muçulmanos, por exemplo, só comem carnes de animais abatidos de acordo com seus preceitos, por que o Candomblé não pode fazer o mesmo?
O sentido de cada parte:
A cabeça ou o mutuê do animal leva a boca / bico, são depositados nos assentamentos crus e servirão para relatar no Duílo todas as nossas necessidades e os nossos pedidos;
Os pés dos animais são para caminhar, ajudar a nos guiar e seguir o percurso da vida de forma correta e também para dar caminho ao ODU;
Quando imola-se um animal para os Nkissis deve-se cobrir os olhos principalmente com Nsabas de Basakará ( folha da costa), para que não levem a nossa imagem;
As penas do peito são depositadas para promover a nossa protecção;
As penas e pontas das asas são para voar, no sentido de transpormos nossas dificuldades na vida;
A cauda é para nos dá o leme, o equilíbrio, a direcção na vida;
O sacrifício do pombo é para dotar-nos da habilidade de voar por sobre os perigos;
Sacrifícios de peixe é para amenizar os sofrimentos. Na hora do sacrifício pedir sorte, fartura e prosperidade;
Ao sacrificar o ÌGBÍN, pedir paz, harmonia e afastar dos perigos, sabendo também realizar de forma cuidadosa e correta, sendo geralmente puxados e nunca cortados com objectos de metal;
O OBI representa a interrelação de amizade, o pacto de comunidade entre o muzenza, o zelador e o Nkissi. Significa a vida. É um alimento básico, e toda vez que é oferecido, o seu consumo é sempre precedido por preces;
O DENDÊ quando utilizado suaviza a ira das divindades;
A pimenta da costa é para dar força, concretizar as palavras, e levar facilmente nossos pedidos aos deuses;
O acaçá é de suma importância no culto e sempre é oferecido de Ngira a Lembá, sem excessões.
É um absurdo acusar o Candomblé de fazer sacrifícios humanos, como têm feito certas igrejas. O Candomblé não é uma religião hipócrita e assume o que faz. São sacrificados, sim, bois, bodes galinhas, patos e muitos outros animais, que depois servem de alimentos à comunidade, mas nunca seres humanos, pois o Orixá vive no Homem e através do Homem.
Todo homem sacrifica não necessariamente num sentido religioso, e mata para sobreviver. Que mal pode haver em oferecer aos deuses as partes que o homem não consome?
Lembre-se de que Jesus foi condenado à morte por pessoas que viriam a santificá-lo depois, fazendo o sinal-da-cruz, adorando a sua imagem ensangüentada. Pois que fique bem claro: não somos contra o homem Jesus, mas contra os homens que mataram Jesus. Nós não matamos nossos Orixás, “nós os amamos com todos os seus defeitos e qualidades”!
Para o Candomblé tudo que a natureza produz é sangue, pois o que define o sangue é a força que detém o axé, ou seja, o Axé é um sacrifício que requer a utilização de vários tipos de sangue, vindos das mais variadas fontes da natureza, atribuindo vida e sentido ao Orixá, aos homens e à própria existência.

